terça-feira, 29 de março de 2011

Uma Alegria Que Se Foi..

Perdi minha cachorrinha. A que viveu 13 anos do meu lado. A que me esperava na porta da escolinha no Jardim I com meu pai. Aquela gordinha que não podia ver ninguém comendo que já ficava olhando com aqueles olhinhos brilhando, implorando por um pedacinho. Aquela que me tratava como se eu fosse 'Os Beatles' quando eu chegava em casa.


Aqui na minha casa tudo ficou quieto, eu não escuto mais ela latir. Aliás.. eu nunca achei que ia sentir tanto a falta daquelas latidinhas ardidas, que lá da sala eu gritava "Fica quieta, Rebeca", mas que logo ia lá fora pedir desculpa.
Eu poderia ser a pessoa mais feia do mundo, a mais pobre, mas ela sempre estaria comigo. Era ela que escutava meus problemas e guardava meus segredos.
A tarde, antes de eu sair para trabalhar, ela vinha toda cheia de charme para receber carinho.. e hoje, ela não está mais aqui e eu sinto muita falta.
Sinto falta de escutar as patinhas dela no piso da cozinha, sinto falta do chorinho dela. Sinto falta dos vizinhos abrirem o portão e dizerem que ela estava lá fora.
Sinto falta do cheirinho dela, sinto falta de abraçá-la. Sinto falta de vê-la com meu ursinho de pelúcia correndo pela garagem quando tinha gravidez psicológica.
Sinto falta de quando nós saíamos juntas para passear. Sinto falta de quando estava fazendo meu pão, sedia-lhe uma fatia de presunto.
Sinto falta de brincar com ela com um tapete qualquer, dela puxando uma ponta e eu a outra.
SINTO FALTA DE VOCÊ.
Na semana da morte dela, me deu uma vontade tão grande de dar um abraço nela, então, quando cheguei do trabalho, deixei minha bolsa no sofá e fui procurá-la. Ela estava lá, a minha espera.
Agachei no chão e simplesmente a abracei muito forte, disse que eu a amava muito. Disse várias vezes. A beijei e sorri.
Depois de uns dias, acordo com os soluços da minha mãe no banheiro.. achei que era uma coisa qualquer. Mas não, era a Rebeca.
Minha mãe entrou no quarto e resmungou.. eu sentei na cama e perguntei "Que foi mãe?" e ela não respondia. Comecei a me desesperar: "Que foi mãe, responde! É alguma das cachorras?" Ela respondeu que sim. Logo: "É a Rebeca?" Minha mãe confirmou. Ela não queria me dizer! Fui mais objetiva: "MÃE, ela morreu ou tá passando mal? ELA MORREU?" E veio a resposta que eu menos queria escutar.
Naquela hora meu mundo caiu, achei que era mentira.. fui procurá-la e ela não estava. Mas como não estava, sendo que a cachorra era MINHA? Meu pai tinha achado melhor não falar nada pra mim.
Tudo que eu precisava naquele momento, era vê-la com meus próprios olhos. Mas ela não estava mais lá. Não pensei em outra coisa, troquei a roupa, saí de casa e corri. Corri para onde ela estava, para onde meu pai tinha a levado.
Nunca corri tanto para conseguir algo. Eu corria desesperadamente pelas ruas, embaixo de um sol de matar. Mas queria ver minha Rebequinha, mesmo morta..
No meio do caminho, por coincidência meu pai parou o carro e disse que tinha esquecido as chaves do terreno que ele ia enterrá-la. Senti uma triste alegria por saber que eu ainda poderia vê-la. Entrei no carro e fomos.
Quando chegamos, ela estava lá. Embrulhada no seu lençol azul, na sombra. Deu uma tristeza muito grande, mas finalmente consegui me despedir. Peguei em sua patinha, em seu rostinho, passei a mão pelo seu corpo que já estava frio. Veio várias lembranças na minha cabeça.. rezei um Pai Nosso, ajudei meu pai levá-la pra onde ela seria enterrada, embaixo de uma linda árvore de Ipê, digno de um lugar pra minha Rebequinha descansar em paz.
A saudade está me corroendo, toda hora lembro dela.. afinal, foram 13 anos juntas. E nesses anos fiz o possível para fazê-la feliz. O meu desapontamento foi que não me acordaram enquanto ela estava nos últimos suspiros. Mas tenho certeza que ela se foi sabendo que todos aqui amavam ela.
A única e insubstituível, Rebequinha..

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